I Ching – O Livro das Mutações

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I – A Origem

O I Ching, que foi o princípio de ordem intrínseco da sociedade chinesa, de sua família, civilização e arte, foi elaborado entre 577 a.C e 479 a.C. e se deve a Fu Xi, Wen Wang, Zhou Gong e Kong Zi.Os primeiros símbolos do I Ching ou O Livro das Mutações foram criados a cerca de cinco mil anos por Fu Shi, tido como o chefe mais sábio de todas as tribos. Não se sabe ao certo se Fu Shi foi uma pessoa física ou a energia de uma tribo específica ou ainda uma energia potencial humana presente em todos nós. Baseado em seus estudos sobre o Céu, a Terra, o organismo dos seres vivos e no que ele chamou de “Mapa do Rio”, Fu Shi foi o criador dos trigramas e dos hexagramas, mostrando como tudo o que há no universo é composto pela síntese das energias Yin (é o princípio feminino, caracterizado pela Força do Receptivo, subjetiva e indireta) e Yang (é o princípio masculino caracterizado pela Força do Criativo, objetiva e direta). Ele baseou seus estudos principalmente num instrumento por ele intitulado “Mapa do Rio” (He Tu), que se tratava de um aparelho esférico que continha vários escritos e desenhos de constelações. Expressões simbólicas de relatos antigos expressam que este aparelho teria sido trazido do Rio Amarelo por um Hipopótamo e foi fonte de estudo de Fu Shi durante muitos anos. Entende-se que a denominação “Mapa do Rio” significa Mapa do Corpo Celeste, já que na língua chinesa a Via Láctea é denominada “Rio do Céu” (He Han). Há três mil e cem anos Rei Wen escreveu os “Julgamentos (Gua Tzé)” dos hexagramas, o que facilitou bastante a compreensão – já que Fu Shi não havia deixado comentários sobre os símbolos. O filho do Rei Wen, o Duque Chou, foi o autor dos 384 “Julgamentos das linhas (Yao Tsé)”, que determinaram mais detalhadamente os significados de cada linha dentro de cada hexagrama. Seiscentos anos depois o texto foi copilado e anotado por Confúcio, um dos maiores filósofos chineses de todos os tempos. Confúcio e Lao Tzé formaram as duas escolas mais importantes da China: Confucionismo (Zu Chia) e Taoísmo (Tao Chia). Confúcio nos deixou um total de sete obras em dez volumes sobre o I Ching.

II – Tradição

Na China, a transmissão dos ensinamentos é feita a partir de duas correntes: Confucionismo e Taoísmo. Ambas admitem o I Ching como o primeiro e o mais importante de todos os estudos. O Confucionismo (chamado de Tradição Visível – Shien Djun- ) está voltado para a questão da harmonia da vida cotidiana. Ele considera que para que uma pessoa desenvolva e forme seu caráter é preciso que cumpra 6 estudos clássicos: I Ching, Ritos e Cerimônias, Poesia, Literatura, Música e História. O Taoísmo (chamado de Tradição Secreta – MiDjun – ) preocupa-se com os mistérios do Universo. O fundamento do pensamento taoísta está nas “Três Obras do Mistério (San Shuen)”; I Ching como “Raiz”, Tao Te Ching como “Ramo” e Nan Hua Ching como “Flor” do misticismo chinês – o estudo dessas três obras é a leitura básica e fundamental para os aprendizes do taoísmo.

III – O Significado do Ching

Para a China antiga, o nome de algo não era tido somente como um rótulo arbitrariamente atribuído, era considerado a expressão do ser, ou seja, o meio pelo qual o ser se faz ver. A palavra ching significa texto clássico, sendo portanto utilizado para designar todas as obras chinesas de grande importância que tratam da “Razão do Universo” e do “Caminho do Homem”. O ideograma Ching é constituído por duas partes. Uma parte significa “fio de seda” e a outra parte significa “caminho”. Ora, o caminho feito pelo fio de seda é a Trilha, ou Jing – por isso esta palavra também está relacionada a Ching.

A diferença entre a trilha e a estrada consiste no fato de que, enquanto a estrada tem um trajeto fixo, a trilha é o caminho que está debaixo de nossos pés enquanto caminhamos; a velocidade da caminhada e a distancia não é relevante, já que só o que existe é o caminho que vai sendo feito enquanto andamos. Portanto, qualquer criatura, em qualquer parte do Universo que esteja, realiza seu percurso na sua trilha.

IV – O Significado do I

A etimologia do ideograma I tem sido objeto de inúmeras discussões. Para alguns autores, o ideograma teria sido inspirado no camaleão, significando movimento (devido à agilidade dos lagartos) e mutação (devido ao mimetismo). Para outros autores, o ideograma teria surgido da união entre o ideograma sol na parte superior, com o ideograma lua na parte inferior (sol e lua representariam o Yang e o Yin, as duas forças fundamentais da mutação). A parte superior do ideograma I significa sol, e a inferior significa lua.

O sol e lua (representando dia e noite) simbolizam o antagonismo e a complementariedade do princípio Yin – Yang; por isso entende-se que o “I” sintetiza o conteúdo filosófico essencial do livro. O yin é representado por uma linha partida __ __ e o Yang é representado por uma linha inteira _____ .
Há quatro possibilidades de combinação com essas duas linhas:

Note que essas combinações caracterizam as quatro fases do dia, do mês e do ano, obedecendo desse modo as leis da natureza:
Já para Wilhelm, o significado original do “I” era lagarto, particularmente o camaleão, simbolizando a mutabilidade e a fácil mobilidade (e portanto caracterizando a naturalidade do movimento que é feito sem esforço). Ao simbolismo do camaleão se uniu o simbolismo do estandarte de um comandante, ou um comando concedido pelo “senhor feudal” em recompensa por seus serviços leais. Desse modo, o significado de “I” se tornou poder e transferência de poder. Ora, o comando de alguém superior/inferior se reflete na relação fixa entre o que está acima e o que está abaixo, daí “I”caracterizar a constância do relacionamento correto (como por exemplo a relação entre o sábio e o discípulo). Wilhelm resumiu todas as concepções do significado de “I” da seguinte forma: “O nome “I” tem três significados que são: o fácil, o mutante e o constante”. O que isso significa? Fácil: Na concepção de Wilhelm, o “portal” para a compreensão do I Ching consiste na simplicidade e na facilidade. Essa facilidade se manifesta numa mente simples, humilde e aberta para alcançar a clareza. Ora, o que se vê com clareza se pode realizar. “Não percebemos o significado deste sistema se desde o princípio procurarmos algo obscuro e misterioso (…) As situações retratadas no Livro das Mutações são os dados primários da vida – aquilo que acontece a todos, todos os dias, e que é simples e fácil de se entender”
“O fácil” também significa que a maneira mais fácil de alcançar o sucesso é invocar a ajuda do poder Criativo, através do qual todas as respostas emergem. Muitas vezes, só obtemos essas respostas num último momento, como se fossem a surpresa do último capítulo de uma peça.

– Mutante: Wilhelm descreve o mutante como o processo dinâmico pelo qual o homem pode expandir suas perspectivas. “Estar no curso deste desenvolvimento é uma premissa da natureza; reconhecê-lo e acompanhá-lo é responsabilidade do livre-arbítrio”. Essa mutação não era concebida como se incidisse sobre os seres, provocando-lhes mutações, pois supor que algo ou alguém muda é supor que algo ou alguém sofre a ação e, portanto, encontra-se fora do processo da mutação. Ora, não há o que ou quem mude porque só há o mudar. A mutação é invariável. Assim, por ser ela mesma imutável, “I” significa mutação e não mutação. “I” também implica em meios de se adaptar às etapas da mutação por meio da simplicidade e da constância e refere-se também à inclinação para o bem que vai adquirindo a pessoa que aprende e vive sua filosofia. Wilhelm descreve “o mutante” como um processo dinâmico pelo qual o homem pode expandir suas perspectivas e compreender o significado da vida. “Estar no curso deste desenvolvimento é uma premissa da natureza; reconhecê-lo e acompanhá-lo é responsabilidade e livre-arbítrio”. Constante: Muito embora a palavra “I” simbolize as leis naturais da mutação, também aponta para viver o processo da mutação com constância. A resistência a vivenciar esse processo dinâmico, erguendo barreiras contra o fluxo da natureza impede que a pessoa expanda suas perspectivas e compreenda o significado da vida, provocando sofrimento. “Estar no curso desse desenvolvimento é uma premissa da natureza; reconhecê-lo e acompanhá-lo é responsabilidade e livre arbítrio”. O constante remete à ideia de segurança. “A segurança é o conhecimento cristalino da posição correta a se tomar, segurança na certeza de que os acontecimentos estão se desenrolando na direção correta”.

A ideia de estabilidade que “o constante” pressupõe não é contrária à mutação, e sim indissoluvelmente interligada a ela. O conceito de imutabilidade é muitas vezes confundido como o de duração ou constância, que seria talvez mais adequadamente expresso pelo de continuidade.
“A duração é uma condição cujo movimento não se exaure com os obstáculos. Não se trata de uma condição de repouso (no sentido de imobilidade), pois a mera estagnação já é um retrocesso. A duração é um movimento de um todo organizado que se renova e se integra, que se processa em harmonia com leis imutáveis.”

V – Os Livros que compõe o I Ching

O I Ching é formado pela junção de três livros:
O Livro I é o Chou I (ou manual divinatório). Este livro possui 64 sessões que se baseiam em 64 figuras de seis linhas chamadas de hexagramas. Cada hexagrama descreve uma situação específica e aponta a maneira correta de viver essa situação.
O Livro II se trata de uma coleção de comentários que, de acordo com Wilhelm, pertencia à escola confuciana.
O Livro III é “uma coletânea de citações de vários autores cujos
nomes de perderam” – Shchutskii. Obs: O Livro II e o Livro III foram incorporados ao texto original.

VI – A relação Sábio-Discípulo

O Sábio é a voz que fala conosco através do I Ching. Para que o Sábio nos guie, é preciso que alcancemos pureza e inocência de espírito. Se chamarmos o Sábio por motivos egoístas, é provável que entremos em contato com o hexagrama “Inocência” (25). Este hexagrama nos diz que não devemos pensar na colheita enquanto aramos, pois nossas metas são alcançadas como uma consequência natural da constância em nosso caminho. Este hexagrama aconselha a nos livrarmos das nossas ambições e desejos, pois desenvolvendo nossa inocência espiritual, aquilo que realmente precisarmos, por ser compatível com nossa natureza, poderá vir a nosso encontro. O hexagrama “A Jovem que se Casa (54)” fala sobre a atração espontânea, indicando que o encontro a meio caminho deve ser mútuo. É preciso mantermos a reserva (ou seja, optarmos pela não-ação) para cultivarmos nossa inocência e pureza de espírito até que o Vir ao Encontro seja mútuo. Ora, somente a partir do recolhimento íntimo podemos manter a nossa inocência e a correta relação com o Sábio.

O Aprimoramento Interior

O empenho em nosso aprimoramento interior com a ajuda do I Ching, gradualmente, alinha nosso ponto de vista com o da nossa verdadeira natureza e, consequëntemente, com o Sábio que existe dentro de cada um de nós. O trabalho de aprimoramento interior consiste em aprender a se deixar conduzir e servir o Sábio. Quando nosso caráter se encontra integralmente desenvolvido, todo pensamento, palavra e ação têm poder e a influência que exercemos acontece automaticamente, de maneira espontânea e sem a menor intenção. Nos dedicando a servir o poder do Criativo, ajudamos a promover harmonia entre todas pessoas e todas as coisas do mundo. O I Ching nos ensina que se quisermos mudar o mundo precisamos primeiro corrigir o Estado, e se quisermos corrigir o Estado, precisamos primeiro corrigir a comunidade, se quisermos corrigir a comunidade, precisamos primeiro corrigir a família, e se quisermos corrigir a família precisamos primeiro corrigir o indivíduo. A influência real para o I Ching se faz necessariamente do interior para o exterior. Nosso aprimoramento interior permite que desestruturemos nossa forma padronizada de pensar e alcancemos o vazio interior necessário para estarmos receptivos aos ensinamentos do I Ching. Esse aprimoramento nos sintoniza aos poucos com a Vontade Cósmica. Frequentemente, só nos dispomos a este aprimoramento interior quando os desafios externos nos fazem sentir incapazes, incompetentes e frustrados o suficiente para que notemos que a única saída é nos livrarmos de ideias prejudiciais com que nos alimentamos cotidianamente. O hexagrama 27, “As Bordas da Boca” (Prover Alimento) se refere a essas ideias e aponta os efeitos destrutivos de ideias aparentemente inofensivas. O Hexagrama 44, “Vir ao Encontro” diz: “As coisas vulgares aqui parecem tão inócuas e convidativas que o homem busca nelas um deleite. Parecem tão diminutas e débeis que ele julga poder se distrair com elas impunemente.” Somente no estado de serenidade interior podemos ouvir os pensamentos que vem do mundo interior. Essa quietude é expressa no hexagrama “A quietude”. Entramos em contato com esse hexagrama quando estamos desamparados. O conselho que ele nos dá é silenciar as vozes inferiores para alcançar a paz interior (a meditação do I Ching também é discutida nesse hexagrama). Para o I Ching, a adversidade é uma oportunidade para superamos as dúvidas, ansiedades e julgamentos que bloqueiam o nosso acesso ao poder do Criativo e assim nos dedicarmos ao aprimoramento e desenvolvimento interior.

Meditação

A meditação é o estado de repouso que nos leva à quietude interior necessária à restauração de nossas energias vitais. Sentar numa posição reta e confortável nos ajuda a evitar distrações. A primeira etapa da meditação consiste em desviarmos a atenção do mundo exterior dos sentidos para o mundo interior da intuição. A respiração profunda (como a que se faz na prática do Yoga) auxilia a acalmar a agitação do corpo provocada pelos desejos e a agitação da mente, provocada pelos pensamentos incessantes. Cinco respirações lentas e profundas nos ajudam a harmonizar a mente e o corpo e, desse modo, transferir nossa atenção do mundo exterior para o mundo interior. Após a etapa da respiração, nos lançamos à tarefa de “purificação interior”, que o hexagrama “O poder de domar do grande” chama de “renovação diária do caráter” (Só com a renovação diária do caráter o homem pode permanecer na plenitude de seus poderes. Esse assunto também é abordado no hexagrama “O Caldeirão”) O uso de imagens mentais ajuda a atingirmos a descontração necessária para entrarmos num estado de meditação. Portanto, durante a própria meditação, as imagens não são mais determinadas conscientemente, mas parecem acontecer como sugestões do que intuímos. Outro método é paralisar a energia para interrompermos a sua atividade. Um requisito fundamental para entrarmos no mundo criativo da meditação é estabelecer a relação correta entre o aprendiz e o mestre, suspendendo qualquer juízo sobre o assunto para que assim a nossa receptividade possa ser fortalecida. Não podemos estar imbuídos de intenções e desejos particulares. É preciso que fiquemos abertos para simplesmente receber com gratidão a oportunidade de participar da experiência com a determinação em perseverar, apesar dos fracassos e obstáculos. Pelo fato da experiência da meditação ser individual, não é possível determinar os resultados. Algumas vezes, você poderá começar a meditar no minuto em que se senta e fecha os olhos, outras vezes pode não calar as vozes internas, que se expressam constantemente e querem tudo imediatamente, assim como fazem as crianças.

Fonte: Dos textos sobre o I Ching